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Minha Experiência com o Método Meir Schneider Self-Healing®

Beatriz Nascimento

Quando fui pela primeira vez a San Francisco, EUA, vinte anos atrás, eu estava tão motivada quanto apavorada. Tenho distrofia fascio-escapulo-umeral e meu quadro estava progredindo rapidamente – estava com 30 e poucos anos. Eu trabalhava tempo integral como professora do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos, e a vida estava ficando cada vez mais difícil: maior dificuldade para falar, comer, pegar objetos nas prateleiras, subir escadas; eu tropeçava com freqüência,  tinha dores nas costas e nas pernas, sentia-me constantemente exausta, inclusive mentalmente,  a pele irritada e uma sensação global de irreversível declínio. Meus sintomas me faziam pensar que “o melhor da vida” já havia ficado para trás, e que eu estava entrando na “velhice”. Meus amigos  diziam que eu parecia muito doente. É como eu me sentia.

Ouvi falar do trabalho de Meir Schneider, PhD. em distrofia muscular através de uma fisioterapeuta paulista que tinha tido contato com seu trabalho na Califórnia. Li seu primeiro livro, Uma Lição de Vida, editora Cultrix, e fiquei fascinada com a sua determinação e capacidade de ajudar a reverter quadros tão sérios de saúde, inclusive distrofia. Era a primeira vez que via impresso alguém afirmar que tinha recursos para ajudar – e muito – as pessoas portadoras de distrofia, e relatava alguns casos. Pensei comigo: “se alguém conseguiu, eu também posso”!

Meir Schneider, Ph.D., cresceu cego, em Tel Aviv, por ter nascido com catarata, glaucoma, astigmatismo e nistagmo. Aos 17 anos entrou em contato com exercícios para os olhos, auto massagem, yoga e técnicas de movimento e, a despeito da descrença radical dos pais e amigos, dedicou-se fervorosamente  ao trabalho com seu próprio corpo. Dezoito meses depois desenvolveu visão funcional e alguns anos mais tarde obteve carteira de motorista nos EUA. Os princípios  que descobriu enquanto trabalhava com seus olhos tornaram-se a base do método Self-Healing,  que ele paralelamente foi desenvolvendo ao trabalhar com pessoas com os mais variados, e sérios,  problemas de saúde.

Durante meus nove meses de estada na School For Self-Healing,em San Francisco, respirei, comi e bebi Self-Healing. Fiz os cursos de formação, recebi duas sessões semanais de massagem com Meir, e realizava os exercícios durante todo o resto do tempo – várias horas diariamente. Ao retornar ao Brasil, Meir avaliou meus progressos em cerca de 40%.  De fato eu me sentia nova: postura  muito mais bonita e equilibrada, os ombros menos curvados para a frente, o rosto menos afunilado, significativo aumento na mobilidade e da expressão facial; os movimentos em geral ficaram mais leves, relaxados, com mais controle, e graça. Pela primeira vez acreditei que eu não era irreversivelmente desajeitada e “estranha”. Estava livre das dores, tropeções e mal-estares. Sentia-me profundamente feliz, talvez pela primeira vez, e com muita energia para realizar o que se configurava como o verdadeiro sentido da minha vida: ensinar ao maior número de pessoas, especialmente aos portadores de distrofia,  como produzir uma verdadeira revolução em suas vidas ao promover o melhor uso possível do seu corpo.

Não estou curada; de tempos em tempos a doença entra em atividade e perco massa muscular. Aprendi a perceber rapidamente quando isso acontece e a tomar providências imediatas para interromper o processo, minimizando as perdas. Tem sido um caminho com altos e baixos, perdas e ganhos, não a panacéia, nem uma solução definitiva. Sem dúvida rico e dinâmico, inclusive abrindo caminho para outros níveis de crescimento pessoal e de “cura” no sentido mais amplo, holístico do termo.

Sei hoje que qualquer que seja  o nível de paralisia e de movimento de uma pessoa é  sempre possível melhorar a qualidade dos seus movimentos, otimizar o uso da energia, minimizar dores e desconfortos, diminuir a progressão da doença, melhorar a capacidade funcional e até mesmo restaurar certos  movimentos perdidos.

Tudo isso é conseguido através de um programa compreensivo que inclui massagem,  relaxamento, movimentos passivos e ativos, dentro e fora d’água,  alongamento, respiração e visualização.

MASSAGEM

Meir Schneider considera a massagem como “um belo presente, um gesto de amor e um instrumento de cura”. O toque adequado é fator crucial no tratamento da distrofia pois eles devem simultaneamente ser muito suaves e penetrantes; produzir relaxamento e ativação neuromuscular; aumentar a micro circulação do tecido  e diminuir a inflamação; dissolver tensões e nutrir as fibras musculares. Associa-se alongamentos, movimentação passiva, respiração, visualização e um pouco de exercícios durante a sessão. A massagem correta é sentida como  bastante agradável e produz uma sensação de leveza, descanso e bem-estar. A pessoa se sente literalmente mais forte. Ela prepara o músculo para o movimento, potencializando seus resultados.

ALONGAMENTO

As fibras musculares não acometidas tendem a ficar sobrecarregadas para compensarem as áreas fracas. Elas encurtam, tornando-se elas próprias mais vulneráveis ao desgaste e limitando a amplitude de movimento das articulações.  Há muita energia estagnada nessas áreas compactadas, que pode ser usada para o fortalecimento das regiões enfraquecidas. Músculos alongados permitem maior amplitude de movimento e mais flexibilidade, melhorando o equilíbrio e a coordenação dos movimentos. Toda a musculatura deve ser alongada, especialmente os grupos flexores, que tendem a ser mais preservados: flexores do braço, do punho, do quadril, e os da panturrilha. Podemos triplicar a  flexibilidade da coluna vertebral o que, além do benefício em si própria, também libera energia e circulação para os membros.

MOVIMENTO

O método Self-Healing® é essencialmente uma terapia do movimento. Acredita-se que movimento é vida,  e que  quanto mais e melhor nos movermos, mais saúde teremos. Em qualquer situação é possível ativar e melhorar movimentos até então negligenciados e o resultado é imediato na melhora física global e no psiquismo do indivíduo.

O movimento passivo melhora a circulação local, libera tensões e é o primeiro passo para o fortalecimento de áreas muito debilitadas. Ele “ensina” ao cérebro a se movimentar com equilíbrio e leveza e a utilizar os músculos corretos. É crucial na prevenção e correção de contraturas.

Tanto na movimentação passiva quanto ativa grande ênfase é colocada no desenvolvimento da consciência corporal, pois espera-se que a pessoa adquira um conhecimento profundo de seu corpo para perceber e modificar seus padrões de movimento. Gradativamente ela vai aprendendo a criar e adequar seus próprios exercícios e estilo de vida.

Também recomenda-se a realização de exercícios na água – preferencialmente piscina aquecida, mas uma banheira já ajuda. A temperatura deve ser agradável, por volta dos 32°. Na água há menos força de gravidade, o que permite uma movimentação mais livre. Todas as articulações devem ser exercitadas, preferencialmente em movimentos circulares, que são os mais balanceados. Simplesmente boiar, com o auxílio de objetos próprios, respirar, soltar todos os músculos e realizar micro movimentos muito suaves  na água, também é extremamente restaurador física e mentalmente.

RESPIRAÇÃO E VIZUALIZAÇÃO

A maioria das pessoas respira pouco, superficial, forçosa e rapidamente. Isso causa um déficit crônico que nos passa geralmente despercebido, mas afeta todas as células  e sistemas do organismo. A capacidade do corpo de se auto-regenerar está diretamente ligada à capacidade de absorção e transporte de oxigênio e eliminação de gás carbônico. O oxigênio é essencial para a produção de energia na célula muscular.  Além disso, a respiração lenta, suave e profunda ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo relaxamento e pelas tarefas de manutenção e limpeza do organismo. O stress – físico, mental e emocional – acelera todo e qualquer processo degenerativo, e a respiração profunda é o caminho mais rápido para combatê-lo. A sensação de expansão que acompanha  a respiração livre é não só extremamente agradável e benéfico globalmente, mas também a base para a produção de movimentos  mais leves e harmônicos.

A visualização (imagens mentais) é usada conjuntamente com a massagem, respiração e movimento. Por exemplo, após realizar um movimento a pessoa imagina-se continuando o dito, só que de forma leve, suave, livre, fácil. Ao repetir o movimento, em seguida, percebe uma melhora na qualidade do movimento. Também imagina-se o sangue jorrando do coração para as diferentes partes do corpo, ou cada parte se expandindo como se fosse um balão juntamente com a inspiração, etc. As visualizações são formas de obter a colaboração do cérebro na produção do resultado almejado. Meir Schneider insiste  que nada acontece no corpo sem que haja a colaboração da mente.


Beatriz Nascimento é terapeuta ocupacional e vem trabalhando com o método Self-Healing® desde 1989, inicialmente no cuidado da sua própria distrofia muscular, depois como terapeuta e professora. Beatriz é uma das poucas pessoas habilitadas, ao lado de Meir Schneider, a ministrar o Curso de Formação, o que vem fazendo desde 1993, na Europa, Estados Unidos e Brasil.


Artigo publicado originalmente na Revista da ACADIM – Associação Carioca dos Portadores de Distrofia Muscular, N. 6, Ano II, Marco, 2000