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Self-Healing : Autocura Através do Movimento

Beatriz Ambrósio do Nascimento

Na adolescência fui diagnosticada como portadora de distrofia muscular progressiva, uma doença genética na qual os músculos vão gradativamente degenerando. A medicina convencional não tem tratamento nem mesmo paliativo e a fisioterapia procura manter a mobilidade e adaptar o indivíduo ao uso de aparelhos ortopédicos. A partir dos 20 anos minha doença piorou muito, embora meu caso fosse ainda considerado benigno pelos médicos, já que a partir dos 30 muita gente com distrofia já depende de cadeira de rodas. Para mim isso não era um consolo mas uma visão assustadora do futuro. Eu trabalhava período integral como professora de terapia ocupacional na Universidade Federal de São Carlos, e à medida que a doença progredia ficava mais difícil alcançar objetos nas prateleiras, fechar os olhos, carregar peso, comer, falar, e subir escadas. Eu tropeçava e deixava cair objetos com frequência, minhas costas e pernas ficavam facilmente doloridas e eu me sentia exausta a maior parte do tempo, inclusive mentalmente. Minha postura estava cada vez pior, com lordose acentudada, ombros curvados para a frente, toda a região superior do corpo afinada e sem vida. Eu me sentia doente e meus amigos estavam preocupados.

Foi nesse contexto que li “Uma Lição de Vida”, do ucraniano radicado nos EUA  Meir Schneider, Ph.D. Meir nasceu com sérios problemas visuais e após várias cirurgias foi considerado legalmente cego. Em Tel Aviv, onde cresceu, ouviu falar de exercícios para os olhos, automassagem e exercícios corporais e, contrariando pais e parentes que o chamavam de louco, passou a dedicar-se fervorosamente aos exercícios. Em menos de um ano desenvolveu visão funcional, que continuou aperfeiçoando até obter, anos mais tarde, carteira de motorista na California, EUA.

Foi durante esses anos de pesquisa e trabalho na recuperação da própria visão que Meir começou a aplicar os princípios de autocura a outras condições patológicas sérias, como distrofia muscular, poliomielite, esclerose múltipla, artrites, dores nas costas, problemas visuais, entre outras,  com resultados tão encorajadores que passou a dedicar sua vida ao desenvolvimento e difusão dos princípios de auto-cura.

Quanto a mim, após quase um ano de tratamento e estudos intensivos do método com Meir Schneider em San Francisco, em 1989, minha postura melhorou consideravelmente e as atividades cotidianas ficaram muito mais fáces. Eu tinha mais energia, meus movimentos ficaram mais relaxados e equilibrados, minha pele mais rosada e saudável. O feed-back dos meus amigos era ainda mais convincente. Não que eu estivesse curada. A distrofia continuou a entrar em atividade de tempos em tempos, acometendo outras partes do meu corpo ou degenerando novamente o que eu havia construído. Self-Healing  não é uma pílula mágica, que “extirpa” a doença  de dentro de voce, mas um instrumento poderoso para manter e melhorar a saúde, a flexibilidade e o bem-estar. Requer paciência, dedicação, boa orientação  e confiança no processo. Eu aprendi a controlar minha saúde a longo prazo, compreendendo o que meu corpo necessita a cada momento e respondendo a ele. Para quem tem uma doença crônica é uma jornada de exploração e descoberta para toda a vida. É reconquistar o equilíbrio após cada “queda”; é se dar tempo.

Descobri que todos nós temos uma capacidade enorme de recuperar e manter a saúde. A chave é o movimento.  Acredito, como Meir, que a falta de movimento é uma das maiores causas das doenças degenerativas que aumentam a cada dia. Muito mais males do que se imagina são causados pela estagnação –  rigidez posturais crônicas e uso desequilibrado do corpo. Dos aproximadamente 600 pares de grupos musculares que temos, nós sobrecarrecagos uns 50 e negligenciamos o resto. Tensão muscular se acumula em algumas áreas, até torná-las insensíveis e imóveis. A parte do seu corpo que for mais vulnerável vai acumular problemas primeiro. O tecido conjuntivo vai gradativamente se endurecer, o espaço articular diminuir, e em algum momento a dor e a rigidez da artrite começará. Um peito enrigecido pode levar a problemas cardíacos; um pescoço tenso pode provocar dores de cabeça, enxaqueca, ou até derrame; passar a vida sentado enfraquece as pernas e  sobrecarrega as costas. Este “congelamento” começa com estress crônico e se torna um hábito físico. Pouco a pouco até mesmo a memória do movimento é perdida em certas partes do corpo; formam-se. padrões de movimento angulares,  quebrados. Perdemos a fluidez e tensionamos muito mais músculos do que o necessário para uma ação: ao escrever apertamos a caneta como se quiséssemos extrair-lhe a seiva, tensionamos ombros e o pescoço, travamos a mandíbula e até mesmo a barriga. Todos esses músculos se condicionam a contrair conjuntamente, como um grande e insensível bloco.

Felizmente esse blocos podem ser quebrados com massagens e exercicios de Self-Healing para consciência corporal, isolamento e periferização. Eis alguns exemplos simples:

ROTAÇÃO DE OMBROS: Deite de lado, com a cabeça sobre um travesseiro, a mão apoiada no chão em frente ao peito e gire o ombro livre cêrca de 20 vezes para cada lado, enquanto dá tapinhas com as pontas dos dedos da outra mão na ponta do ombro que gira. Devagar e respirando lentamente.Visualize que é a ponta do ombro que está levando o movimento, o que solta a tensão dos músculos do meio das costas.

ROTAÇÃO DE BRAÇOS: na mesna posição, gire o braço todo em movimento circular cêrca de 20 vezes. Pense que são as pontas dos dedos que estão puxando o braço. Interrompa o movimento e dê batidinhas no chão com a ponta dos dedos; isto vai ajudá-lo a sentir a ponta dos dedos. Repita a rotação dos braços e depois dos ombros. O ombro ficou mais leve? Deite-se barriga para cima, relaxe, respire e compare os dois ombros. Voce vai se surpreender. Repita do outro lado.

Os exercícios de Self-Healing são relaxantes, energizantes e ótimos para diminuir a dor. Quando voce for andar, visualize que seus pés estao levando suas pernas. Quando digitar ou escrever, imagine que são as pontas dos dedos que realizam o movimento. Respire profundamente e imagine que cada parte do seu corpo está se alongando, expandindo e soltando.

 


 

 

Beatriz Nascimento é terapeuta ocupacional e instrutora da Escola de Self-Healing. Desde 1993 ministra workshops e cursos de formação no método. 


Para maiores informações sobre este método consulte o site da Associação Brasileira de Self‑Healing: www.self-healing.com.br.